Posts Tagged ‘vinho chileno’

Tubaina, cocô, pé de moleque e eucalipto: uma tarde difícil.

19 de agosto de 2011

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Pois é. Já ouvi por aí que vida de sommelier tem glamour e que meu trabalho deve ser muito bom porque bebo em serviço.

Talvez pelo título vocês já tenham entendido que a coisa não é tão simples assim. Sempre recebemos amostras aqui de vinhos e eu e minha colega, Ana Paula Montesso, a Cacá, degustamos  – obviamente tudo às cegas, para ver o que há de interessante.

A vantagem de se degustar às cegas é que não há expectativa de nada. Você vai com mente, nariz, paladar e cérebro limpos, sem preconceitos, sem simpatias pelo produtor, sem “este é do meu amigo” ou “é de uma nova região, deve ser interessante”. Não. Você só vai com as suas ferramentas limpas, repito: nariz, boca, cérebro, papel e caneta. E, bem. Esta tarde de sexta feira, confesso, a coisa foi difícil.

Começamos com um branco amarelo bem claro. Não tinha resquícios das tonalidades verdes, nem sugeria estar dourado. Era amarelo e brilhante. Nariz começou bem floral, lembrando camomila. Depois apareceu a tubaína (refrigerante de tutti frutti) que impregnou tudo e não mudou mais. Uns toques de fermento apareciam de vez em quando. Na boca é cremoso, tem um toque de acidez, uma espécie de doçura, um pouco enjoativo – apesar de ser saboroso. Tinha um final com fermento, amargo, sem frescor, realmente mole. Achei triste.

E fiquei bem triste ao saber que era um vinho de Bierzo. A uva por lá é a Godello. Eu esperaria mais frescor daquela região de clima tão atlântico e cantábrico, tão fresco.É um vinho que não está à venda no Brasil. Chama-se Canes. 2010. Tem um rótulo lindo que também está em braile. Não sei o preço também.

O número dois foi mais complicado. Na cor já sugeria uma certa evolução. Denso, mas já com tons mais rubis, meio alaranjados. No nariz tinha notas animais, nozes e vermute. Depois, complicou. Um cheiro de armário velho, fezes, com cloro, bem dramático. Na boca tem cremosidade, é cheio, um toque de acidez, mas com taninos muito grudentos, final amargo, parecia um café verde, um amargo de vermute.

Fiquei bem decepcionada ao saber que era um Lídio Carraro Quorum 2005. Uma casa que trabalha sério, mas cobra caro. R$ 90,00. Complicado.

O número três tinha uma cor violeta linda. No nariz: amendoim, pé de moleque, muita barrica, baunilha, bem excessivo. Depois ficava alcoólico, tinha uma fruta vermelha escondida atrás da baunilha e do álcool. Na boca é bem cremoso e cheio, com taninos finos, mas doção, xaroposo, com um tanino que lembra tanino de engaço, muito álcool, muita adstringência, um vinho cheio de arestas. Ainda arrasada de saber que é um vinho do Alentejo, feito com a uva Syrah – uma combinação que, quando dá certo, é lindíssima. Não foi o caso. R$ 125,00. Chama-se Margarida Cabaço 2008.

O último vinho, na hora que pus no nariz, reconheci a origem. Eucalipto e goiaba – Maipo, Chile. Não tinha muito mais. Não é um aroma desagradável. Mas um pouco óbvio, cansativo. O Chile é tão variado, eu sempre espero encontrar algo menos óbvio. Naboca tem taninos sequinhos, meio grudentos, falta um sabor no meio da boca, sentimos só as texturas um pouco rústicas e o álcool. O vinho é o Peñalolen 2008 Cabernet Sauvignon.

 

Tutti frutti, poop, peanuts and eucalyptus: hard day work.

Well, some people like to say that the life of a sommelier has glamour and that my work must be very good as I can drink on the job.

Maybe as the title suggests you have noticed that it is not that simple. We always get wine samples and my collegue and I, Ana Paula Montesso, tasted -obviously a blind tasting , to see what was interesting.

The advantage of a blind tasting is that there are no expectations. You approach it with a clear mind, nose, palate and brain, with no prejudice, no favorite producer, without “this one is my friend’s” or “it’s from a new region, it should be interesting”. No. You  get into it with your tools clean, I repeat: nose, mouth, brain, paper and pen. And well, this Friday afternoon it was, I confess, difficult.

We started with a really clear yellow white. There was no trace of green tones, nor suggest a golden hue. It was yellow and shiny. The nose started off really floral, reminding one of camomile. Then Tubaina appeared (Brazilian tutti fruity soda) that impregnated everything and didn’t change again. On palate it is creamy, has a touch of acidity, a kind of sweetness, a bit too much – although tasty. The finish had yeast, bitterness, no freshness, really soft. It was sad.

It made me sad to know later  that it was a Bierzo. The grape is a Godello. I would expect more freshness from a region that has such an Atlantic and Cantabrian climate. The wine is not sold here in Brazil. It’s called Canes.2010. The label, which is beautiful, is also in Braille.

Number two was more complicated. The color suggested a certain evolution. Dense, but already with ruby tones, kind of orangy. On nose there were notes of animal, nuts and Vermouth. Then it got more complicated. A smell of old wardrobe, poop, bleach, really dramatic. On palate it is creamy, full, a touch of acidity, but with sticky tannins, bitter finish, tasted like green coffee, vermouth bitterness.

Let down when I saw that it was a Lídio Carraro Quorum 2005. A winery that does serious work, but charges dearly. R$ 90,00. Complicated.

Number three had a beautiful violet colour. On nose: peanut, peanut brittle, a lot of oak, vanilla, very excessive. Then it became alcoholic, there was a hidden red fruit behind the vanilla and the alcohol. On palate it is really creamy and full, with fine tannins, but very sweet, syrupy, with a tannin that reminds one of stalk tannin, very alcoholic, a lot of astringency, an edgy wine. I’m still devasted to know that it is a wine from the Alentejo, made with a Syrah grape – a match that when done right is very beautiful. This was not the case here. R$ 125,00.It’s called Margarida Cabaço 2008.

The last wine , as soon as I put my nose to it, I knew it’s origin. Eucaliptus and guava – Maipo, Chile. There was not much more. It’s not an unpleasant aroma. But a bit obvious, tiring. Chile is so varied, I always expect to find something less obvious. On palate the tannins are dry, kind of sticky and a mid-palate taste missing. We only felt the textures, no taste in it, a little rough and the alcohol. The wine is a  Peñalolen 2008 Cabernet Sauvignon.

Vertical de Seña

27 de julho de 2011

(to read in english, please scroll down)

 

A importadora Expand trouxe uma vertical bem interessante do ícone chileno Seña. Apresentada por Carolina Herrera, jovem enóloga da Vinícola Arboleda e enóloga assistente de Seña, pudemos degustar 6 safras, começando pela 1995 chegando até a recém nascida 2007 .

E  1995 é a primeira safra do vinho que começou com uma joint venture entre o velho californiano Robert Mondavi e o então jovem enólogo chileno Eduardo Chadwick. Apesar de a parceria ter terminado em 2003,  Seña seguiu e se projetou como um ícone chileno mostrando a força da marca e do vinho, começando bem  justamente com esse 95 vigoroso e imponente.

O vinhedo está localizado em um valezinho na parte oeste e dentro do vale maior do Aconcágua,  onde passa o Estero Rabuco, riozinho que deságua no Rio Aconcágua. O clima é fresco, ensolarado e de lenta maturação. Chadwick e Mondavi fizeram uma pesquisa de 4 anos para chegar no lugar perfeito para o vinho que queriam produzir. Basicamente há Cabernet Sauvignon e Merlot, mas há também Carmenère, Petit Verdot, Cabernet Franc e Malbec que podem entrar no corte do vinho em diferentes porcentagens dependendo da característica de cada safra. Além do mais, para ter uma expressão ainda mais fiel do terroir, Chadwick está estudando a biodinâmica para aplicá-la em seus vinhedos. Dá pra ter uma noção do vinhedo no mapa acima

O site deles é bem completo e se vocês quiserem dar uma olhada, vale a visita aqui.

Minhas impressões da vertical:

1995

Cor bem evoluída, com bastante depósito, normal para um vinho de 16 anos. Nariz interessante, com notas de pimentão assado e carne, folha de louro e com o tempo, aparecem notas de chá preto. Com certeza, se eu passasse mais tempo com a taça, poderia perceber ainda melhor os aromas se abrindo. Na boca, é muito delicado e elegante, um toque de frescor, com taninos finos, álcool arrastando todos os aromas pela boca, com muito extrato, firme, longo e fino. Exemplo de elegância.

1997

Nariz com mais toques de couro, mais pimenta do reino e álcool mais evidente. Aos poucos abre para notas de chocolate amargo. Na boca é bem tânico, com muita diferença do anterior. É firme, tem menos extrato, boa acidez, é mais secão e picante. Longo, mas não tanto quanto o anterior.

2001

Aromas de caramelo e tabaco doce. Depois de um tempo, notas de café frio, cedro, alecrim, baunilha. Ainda jovem e fechado, com a madeira mais evidente que a fruta. Na boca é cremoso, cheio, rico, bem tânico e alcoólico. Longo, mas ainda jovem e fechado na boca também.

2003

Apesar de mais jovem que o 2001, mostra mais o cabernet, com toques de pimenta do reino e pimentões maduros. Aparecem frutas, toques de ervas e madeira fresca, cedro. Com a oxigenação aparece a baunilha e um lado aromático de sândalo. Na boca tem textura doce, é fresco, com taninos muito finos. Meio “doção”, achocolatado, tudo menos fundido, menos elegante.

2006

Começa bem fechado, mostrando só a madeira, com notas de baunilha. Vai se abrindo aos poucos, mostrando um lado bem aromático, com toques bem florais, é denso, com perfumes femininos sutis. Na boca é muito redondo, de textura doce, taninos muito finos com ótimo frescor. Apesar de ser cheio em boca, é mais fácil de tomar, é suculento e, apesar da juventude e do potencial para aguentar um tempo em garrafa, está prontíssimo para tomar.

2007

Nariz fechado, com cheiro evidente de leite condensado. Aparecem as notas da madeira e algo de fruta bem denso. Toques de charuto e chocolate também. Na boce é muito fresco, vivo, cheio, com taninos muito finos. O álcool ainda está evidente, bem presente, mas equilibrado com todo o frescor. É secão dos taninos, firme, com toque de café. O final é longo e mostra uns toques florais no retrogosto. Imponente e complexo na boca, apesar do nariz ainda fechado.

Seña Vertical

The importer `Expand’ brought a really interesting vertical of the Chilean icon Seña. Presented by Carolina Herrera, the young winemaker from Arboleda Winery and  assistant to  Seña, we tasted 6 vintages, starting with a 1995 until the the newly born 2007.

And 1995 is the first vintage that started with a joint venture between the good old californian Robert Mondavi and the then young chilean winemaker Eduardo Chadwick. Although the partnership ended in 2003, Seña continued and projected himself as a chilean icon portraying the strength of the brand and of the wine, starting off with exactly this 95 that is vigourous and imponent.

The vineyard is located in a little valley in the western  part of the greater Aconcágua Valley, where the Rabuco Estero passes, a stream that flows into the Aconcágua River.The weather is fresh, sunny and of slow maturity. Chadwick e Mondavi researched for 4 years to find the perfect place for the wine they wished to produce. Basically there is  Cabernet Sauvignon and Merlot, but also Carmenère, Petit Verdot, Cabernet Franc and  Malbec that can be included in the assemblage at different percentages depending on the characteristics of each vintage. Furthermore in order to keep very true to the terroir, Chadwick is studying Biodynamics to apply the principles to his vineyards. The map above gives us a hint of the vineyard location.

Their web site is really good and worth taking a look.

My impressions of the vertical:

1995

The color is well evolved, with a lot of solid deposits, normal for a 16 year old wine. Interesting nose, with notes of baked green peppers and meat, bay leaves and with some time in the glass, we feel notes of black tea. Certainly if I had more time to spend with the wine in the glass, I’d have noticed the aromas opening up even better. On palate it is very delicate and elegant, a touch of freshness, fine tannins, the alcohol dragging all the aromas through the mouth, with a lot of extract, firm, long and fine. An example of elegance.

1997

Nose with more leathery touches, more black pepper and alcohol more evident. Slowly opens to touches of dark chocolate. On palate it is really tannic, very different from the previous wine. It is firm, has less extract, good acidity, it is drier and hotter. Long, but not as much as the previous one.

2001

Caramel and sweet tobacco aromas. After a while, notes of cold coffee, pine, rosemary and vanilla. It is still young and closed, with the wood more evident than the fruit. On palate it is creamy, full, rich, very tannic and alcoholic. Long, but still young and closed on palate too.

2003

Although it is younger than the 2001, it shows the Cabernet more, with touches of black pepper and ripe green peppers. Fruit appears, touches of herbs, fresh wood and pine. When we give it a little air, vanilla appears and an aromatic side of sandal wood. On palate it has a sweet texture, is fresh, with very fine tannins. Kind of sweet, chocolaty, all less founded, less elegant, but ripe and tasty.

2006

It starts off very closed, only showing the wood, with notes of vanilla. It opens up slowly, showing a very aromatic side, with very flowery touches, it is dense, with a subtle feminine perfume. On palate it is very round, of sweet texture, very fine tannins with excellent freshness. Although it is full on palate, it is easier to drink, it is succulent, and although young and potentially able to be bottle kept, it is very ready to drink. 

2007

Closed nose, with a strong smell of condensed milk. The notes of wood and really dense fruit appear. Touches of cigar and chocolate too. On palate it is really fresh, alive, full, with very fine tannins. The alcohol is still evident, very present, but balanced with all the freshness. It is dry of tannins, firm, with a touch of coffee. The finish is long and shows  floral touches in the aftertaste. Imponent and complex on palate, despite the closed nose.

Novos perfumes do pacífico

2 de junho de 2010

Quando fui convidada para uma degustação de vinhos “top chilenos” na semana passada, confesso, fiquei com preguiça. Porque, convenhamos, o termos “top chilenos” pode ser compreendido como: vinhos ultra maduros, com muito aroma a goiaba, goiabada e eucalipto, muito tanino, muito álcool, pouco frescor e elegância e madeira até dizer chega…
…mas que bom que fui. Minha vontade de conhecer novos rótulos foi mais forte que meu preconceito e fui premiada com uma ótima surpresa. Perfumes florais, notas de incenso, cedro fresco foram alguns descritores novos para mim, que indicam que o Chile pode estar entrando numa outra onda, buscando mais elegância e frescor em seus vinhos “Top”. Degustei às cegas. Depois peguei a lista de vinhos e preços. Curioso como alguns vinhos ultra famosos, me pareceram grosseiros e enjoativos.
Algumas impressões.
 
1. Começa fechado, abre lentamente mostrando notas florais, toques de incenso e cedro fresco. Na boca é bem redondo e grande, taninos muito finos, bem fundidos, resultando numa textura cremosa e fresca, com um amarguinho lembrando chocolate amargo no final. Erasmo 2006 – Maule

2. Nariz limpo com toques de fruta fresca, toque de jaboticaba meio verde, um toque mineral que me fez lembrar aquelas pedras na praia, uva pisada e cedro. Na boca tabmé é grande e cremoso, já mais duro, com um toque salgado.  Sigla 4  2008 Maipo.
 
3. Floral, lembra um perfume, rosas secas. Tem toques da barrica também (baunilha, mas muito fresca). Na boca começa fresco, com ótima acidez, tem também um volume cremoso, de textura doce, mas com taninos muito firmes, grandes e não tão fundidos, deixando a boca um pouco seca e um toquezinho amargo, como chocolate amargo. Antiyal 2007 – Maipo.
 
 
4. Aroma de baunilha, um toque de frescor lembrando um sabonete de lavanda, toques florais com uma nota de violeta. Na boca é fresco, mais magro que o comum, mais elegante, com taninos firmes, bastante extrato com sabor a fruta, tudo se fundindo e derretendo no final, muito agradável. Ribera del Lago 2007 – Maule.
 
5. O clássico cheiro de goiabada aparece, num primeiro momento com notas mais frescas, depois me lembrou uma goiabada meio grelhada, com uns toques torradinhos. Na boca tem uma doçura na textura, muito gordo e amplos, com muito tanino, tudo bem exagerado, no melhor estilão “super-extraído”, atualmente, muito em voga. Domus Aurea 2006 – Maipo
 
 
6. Nariz um pouco fechdo, com toques tostados e de baunilha. Na boca, também tem um ataque doce e redondão, taninos muito finos, falta acidez, o final é xaroposo, meio doce, meio amargo, bastante entediante e enjoativo. Almaviva 2007
 
7. Voltam os florais, o toque mineral que me lembra aquele plástico novo, ou carro novo, não consigo definir. Toques de café verde, pão torrado, madeira recém cortada, as tudo bem discreto, nada exuberante. Na boca, tem textura doce, também falta acidez, tem muitos taninos, são muito firmes, com o final nada fresco, com uma certa doçura. Clos Apalta 2006 – Colchagua.
 
Estes dois últimos foram 2 argentinos apresentados, um pouco fora do tema.

Aromas de incenso, lavanda, muito intenso e perfumado. Na boca tem taninos firmes, finos e grudentos, com textura doce, depois de tomar, não dava nem para falar, de tão colada que as mucosas ficaram. Benegas 2005 – Finca Libertad.
Aromas de papaia, cedro e lareira, lembrando cinzas e, depois um toque de açaí. Na boca é enorme, quadradão, falta frescor de acidez, tem taninos de muita qualidade, fininhos, que se derretem no final da boca. Finalzinho amargo, lembrando café e choco amargo. Matilde 2005 – Lamadrid.

Todos os vinhos são importados pela Casa do Porto. http://casadoportovinhos.com.br/


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