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Shiraz Syrah

21 de janeiro de 2012

o que syrah que shiraz... ?....

É ótimo degustar às cegas, ficamos livres dos malditos preconceitos e mais abertos às sensações que os vinhos causam, em vez de pensar em seu rótulo ou preço. Pude provar nesta semana dois rótulos de syrah de duas regiões bem distantes que mostraram grandes atributos e conseguiram me confundir.

Sabia que um era da Califórnia e o outro de Crozes-Hermitage, do vale do Rhône. Achei que acharia fácil a característica mais de violetas e mineral do francês e do americano esperaria uma fruta mais exuberante e menor acidez já que, apesar de o clima de lá ser mais fresco, é normal encontrar vinhos vinificados para atingir altos níveis de álcool.

It’s great tasting blind, we are free of prejudice and free from stupid prejudiced, so we get to be more open to the sensations that wines cause, instead of thinking of its label or price. I tasted this week two labels of syrah from two regions far apart that showed great attributes and got me confused.

I knew that one was from California and one from Crozes-Hermitage, Rhône Valley. I thought I would find easily the  more violety and mineral French style and epected the American to have more exuberant fruit and less acidity since, although the climate of Sonoma is pretty   cool, it is normal to find wines with high levels of alcohol.

O primeiro tinha um toque meio terroso, algo também de fumaça, parecia um pouco pedras quentes. Atrás desse aroma, tinha muita fruta, geléia de framboesa, de cereja, super perfumado e elegante com uma certa força alcoólica que só dava mais intensidade aos aromas – não era deselegante. Na boca, também muito sabor à fruta, com taninos super fininhos e fundidos, ótima acidez, tudo bem integrado, extremamente agradável e fácil de beber. Por causa dessa nota no nariz meio mineral e a elegância com boa acidez na boca, meu (maldito) preconceito me levou a crer que poderia este ser o francês.

O outro tinha muito mais fruta madura, bem exuberante. Na boca tinha algo menos de acidez, era mais cheio, taninos mais firmes, também com boa acidez, mas tudo um pouco menos integrado, como se cada coisa estivesse lá – taninos, fruta, acidez e álcool, mas ainda não se fundiram. Com alguns minutos, apareceu a tal da violeta, que associo muito aos vinhos do norte do Rhône quando ainda são jovens. E o nariz foi abrindo também, para uma certa pimenta do reino, umas frutas mais frescas, mas sempre denso e exuberante. Desisti de tentar adivinhar.

The first had earthy, smokey side, reminded me a little of hot stones. Behind this aroma, it had plenty of fruit, raspberry jam, cherry, super fragrant and elegant with a certain alcoholic strength that only gave more intense flavorings – it was not unbalanced. In the mouth, lots of fresh red ripe fruit, with super thin and melted tannins, great acidity, all well integrated, extremely pleasant and easy to drink. Because of this mineral notes and good acidity and elegance in the mouth, my (damn) prejudice led me to believe that this could be the French.

The other on had lots of ripe fruit, and was so lushious. In the mouth had less acidity, was fuller, firmer tannins, also with good acidity, but a little less integrated, as if everything was there – tannins, fruit, acidity and alcohol, but not yet well merged. Within a few minutes, this flowery, violet aromas appeared, which I associate a lot to the northern Rhone wines when they are young. And the nose was also opened for some black pepper, some fresh fruit more, but still dense and lush. I gave up trying to guess.

O resultado foi que o primeiro era o da California e o segundo do Rhône. Os dois são excelentes exemplares da uva, a preços bem diferentes e até com funções diferentes. O Californiano, durante seu tempo na taça, se manteve frutado e delicioso, ficando cada vez mais fácil de tomar, sem nunca ser pesado. O francês foi mostrando cada vez mais aromas e a boca se manteve ainda apertada e firme. Eu tomaria o californiano num churrasco num dia não muito quente e o Crôzes-Hermitage eu comeria também com uma carne, mas talvez alguma carne que tivesse um molho com uma pegada adocicada, uma redução de frutas (de uva talvez), algo de cogumelos, enfim, acho que para tomá-lo agora, um prato com estas características ajudaria. O que acontece também é que ele ainda pode ganhar muito com um certo tempo em garrafa. Daqui a algum tempo, estará completamente diferente.

The result was that California was the first and second from Rhône. Both are excellent examples of this variety, the prices very different and, of course, they have different “functions”. The Californian, while in the glass, remained fruity and delicious, becoming easier to drink, without ever being heavy.

The French one was increasingly showing  more and more aromas and  still remained tight and firm in mouth. I’d drink the Californian one with a good barbecue in a not so hot day and, with the Crozes-Hermitage, I’d also eat meat, but maybe some meat with a sauce that had a sweet side, a reduction of fruit (grape perhaps), something of mushrooms, because to drink it now, a dish with these features would help. It can still gain much from a certain time in the bottle. In a while, it will be completely different.
O Syrah de Sonoma é o Fox Brook e você o compra por excelentes R$ 49,00 na Wine Experience

O Crôzes-Hermitage é do Jean Luc Colombo, “Les Fées Brunes” e está à venda na importadora Decanter

Tubaina, cocô, pé de moleque e eucalipto: uma tarde difícil.

19 de agosto de 2011

(to read in english, please scroll down)

Pois é. Já ouvi por aí que vida de sommelier tem glamour e que meu trabalho deve ser muito bom porque bebo em serviço.

Talvez pelo título vocês já tenham entendido que a coisa não é tão simples assim. Sempre recebemos amostras aqui de vinhos e eu e minha colega, Ana Paula Montesso, a Cacá, degustamos  – obviamente tudo às cegas, para ver o que há de interessante.

A vantagem de se degustar às cegas é que não há expectativa de nada. Você vai com mente, nariz, paladar e cérebro limpos, sem preconceitos, sem simpatias pelo produtor, sem “este é do meu amigo” ou “é de uma nova região, deve ser interessante”. Não. Você só vai com as suas ferramentas limpas, repito: nariz, boca, cérebro, papel e caneta. E, bem. Esta tarde de sexta feira, confesso, a coisa foi difícil.

Começamos com um branco amarelo bem claro. Não tinha resquícios das tonalidades verdes, nem sugeria estar dourado. Era amarelo e brilhante. Nariz começou bem floral, lembrando camomila. Depois apareceu a tubaína (refrigerante de tutti frutti) que impregnou tudo e não mudou mais. Uns toques de fermento apareciam de vez em quando. Na boca é cremoso, tem um toque de acidez, uma espécie de doçura, um pouco enjoativo – apesar de ser saboroso. Tinha um final com fermento, amargo, sem frescor, realmente mole. Achei triste.

E fiquei bem triste ao saber que era um vinho de Bierzo. A uva por lá é a Godello. Eu esperaria mais frescor daquela região de clima tão atlântico e cantábrico, tão fresco.É um vinho que não está à venda no Brasil. Chama-se Canes. 2010. Tem um rótulo lindo que também está em braile. Não sei o preço também.

O número dois foi mais complicado. Na cor já sugeria uma certa evolução. Denso, mas já com tons mais rubis, meio alaranjados. No nariz tinha notas animais, nozes e vermute. Depois, complicou. Um cheiro de armário velho, fezes, com cloro, bem dramático. Na boca tem cremosidade, é cheio, um toque de acidez, mas com taninos muito grudentos, final amargo, parecia um café verde, um amargo de vermute.

Fiquei bem decepcionada ao saber que era um Lídio Carraro Quorum 2005. Uma casa que trabalha sério, mas cobra caro. R$ 90,00. Complicado.

O número três tinha uma cor violeta linda. No nariz: amendoim, pé de moleque, muita barrica, baunilha, bem excessivo. Depois ficava alcoólico, tinha uma fruta vermelha escondida atrás da baunilha e do álcool. Na boca é bem cremoso e cheio, com taninos finos, mas doção, xaroposo, com um tanino que lembra tanino de engaço, muito álcool, muita adstringência, um vinho cheio de arestas. Ainda arrasada de saber que é um vinho do Alentejo, feito com a uva Syrah – uma combinação que, quando dá certo, é lindíssima. Não foi o caso. R$ 125,00. Chama-se Margarida Cabaço 2008.

O último vinho, na hora que pus no nariz, reconheci a origem. Eucalipto e goiaba – Maipo, Chile. Não tinha muito mais. Não é um aroma desagradável. Mas um pouco óbvio, cansativo. O Chile é tão variado, eu sempre espero encontrar algo menos óbvio. Naboca tem taninos sequinhos, meio grudentos, falta um sabor no meio da boca, sentimos só as texturas um pouco rústicas e o álcool. O vinho é o Peñalolen 2008 Cabernet Sauvignon.

 

Tutti frutti, poop, peanuts and eucalyptus: hard day work.

Well, some people like to say that the life of a sommelier has glamour and that my work must be very good as I can drink on the job.

Maybe as the title suggests you have noticed that it is not that simple. We always get wine samples and my collegue and I, Ana Paula Montesso, tasted -obviously a blind tasting , to see what was interesting.

The advantage of a blind tasting is that there are no expectations. You approach it with a clear mind, nose, palate and brain, with no prejudice, no favorite producer, without “this one is my friend’s” or “it’s from a new region, it should be interesting”. No. You  get into it with your tools clean, I repeat: nose, mouth, brain, paper and pen. And well, this Friday afternoon it was, I confess, difficult.

We started with a really clear yellow white. There was no trace of green tones, nor suggest a golden hue. It was yellow and shiny. The nose started off really floral, reminding one of camomile. Then Tubaina appeared (Brazilian tutti fruity soda) that impregnated everything and didn’t change again. On palate it is creamy, has a touch of acidity, a kind of sweetness, a bit too much – although tasty. The finish had yeast, bitterness, no freshness, really soft. It was sad.

It made me sad to know later  that it was a Bierzo. The grape is a Godello. I would expect more freshness from a region that has such an Atlantic and Cantabrian climate. The wine is not sold here in Brazil. It’s called Canes.2010. The label, which is beautiful, is also in Braille.

Number two was more complicated. The color suggested a certain evolution. Dense, but already with ruby tones, kind of orangy. On nose there were notes of animal, nuts and Vermouth. Then it got more complicated. A smell of old wardrobe, poop, bleach, really dramatic. On palate it is creamy, full, a touch of acidity, but with sticky tannins, bitter finish, tasted like green coffee, vermouth bitterness.

Let down when I saw that it was a Lídio Carraro Quorum 2005. A winery that does serious work, but charges dearly. R$ 90,00. Complicated.

Number three had a beautiful violet colour. On nose: peanut, peanut brittle, a lot of oak, vanilla, very excessive. Then it became alcoholic, there was a hidden red fruit behind the vanilla and the alcohol. On palate it is really creamy and full, with fine tannins, but very sweet, syrupy, with a tannin that reminds one of stalk tannin, very alcoholic, a lot of astringency, an edgy wine. I’m still devasted to know that it is a wine from the Alentejo, made with a Syrah grape – a match that when done right is very beautiful. This was not the case here. R$ 125,00.It’s called Margarida Cabaço 2008.

The last wine , as soon as I put my nose to it, I knew it’s origin. Eucaliptus and guava – Maipo, Chile. There was not much more. It’s not an unpleasant aroma. But a bit obvious, tiring. Chile is so varied, I always expect to find something less obvious. On palate the tannins are dry, kind of sticky and a mid-palate taste missing. We only felt the textures, no taste in it, a little rough and the alcohol. The wine is a  Peñalolen 2008 Cabernet Sauvignon.


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