Thunevin: entrevista sem censura!

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Em fevereiro deste ano (2013), tive a oportunidade de encontrar Jean Luc Thunevin, uma das figuras mais polêmicas do vinho de Bordeaux de nosso tempo. Sua visita ao Brasil era para falar sobre a subida de seu vinho, Château Valandraud, ao topo da classificação de St.Émilion, em Bordeaux.

Abaixo, uma entrevista exclusiva, sem cortes, sobre tudo o que ele nos tem a contar sobre seu vinho, as dificuldades de ser um forasteiro em Bordeaux e sua subida à elite do vinho.

Esse encontro também rendeu uma matéria na revista Alfa que está na sequência.

 

O Sr. começou no vinho quase por acaso e desde o começo seu trabalho foi visto como polêmico. Se os franceses gostam tanto do trabalho artesanal, de pequenos produtores, por que fez tanto barulho?

Sua pergunta é interessante e é uma abordagem que nunca fizeram. Na França o problema é que o sucesso não é algo natural nem bem visto.  Não estamos nos EUA ou no novo mundo. Historicamente, na classificação de 1855 do Médoc, os vinhos foram classificados baseados em seus preços.

Em St. Émilion, a classificação veio cem anos depois. No meu caso, eu desde o começo,  vendia meu vinho bem caro. Agora, eles estavam se lixando para o  aspecto de pequeno produtor, artesanal, simpático, romântico do meu vinho.

O que os chocava era o preço que eu conseguia vender. Mesmo Robert Parker, que disse que meu vinho era muito bom, escrevia que também era muito caro. Era a primeira vez ali que alguém se tornava rico com o vinho.

De maneira geral, são pessoas ricas que depois vão se dedicar ao vinho: banqueiros, tipo o Rothschild, o Pinault (nota: empresário milionário francês). Eu ganhei dinheiro e fama com o vinho. É por isso que há polêmica. E também porque eu sou bocudo.

No ano 2000 o você desobedeceu as regras de produção de St Émilion, cobrindo seus vinhedos com plástico para que não se molhassem – o que é proibido. Conte-nos um pouco sobre o episódio. 

Há um livro escrito por um intelectual, Pierre Marie Chauvin, sobre a reputação dos vinhos de Bordeaux , e minha história é contada por ele por que ele a acha impressionante. Ele diz que o problema é que eu rompi os códigos e quando fazemos isso somos considerados traidores, mas só podemos ser traidores quando há códigos. E meu sucesso vem do fato de que havia regras rígidas e eu jogava com essas regras. Então, eu fazia um bom vinho sem mesmo ter um grande terroir, eu era famoso e eles não viam razão em eu ser conhecido, de vender caro sem  ter razão para vender caro. E eu fazia experimentações, então em 2000 eu pus o plástico, pedi autorização para faze-lo. Eles haviam me autorizado antes, em 98 e em 99. Mas aí disseram, chega.

Mas eu queria fazer, porque sabia que estavam fazendo em outras grandes propriedades de ricos e prestigiosos (Château Margaux, Petrus e Cheval Blanc).  Então, se eles deixam os ricos fazerem, porque os “pobres” não?

Insisti e eles disseram que aquilo mudava o terroir. Me avisaram que iam me tirar o direito de produzir dentro da AOC. Eu não acreditei. Na manhã seguinte, minha esposa acordou e eles tinham colocado faixas plásticas, como aquelas de cena do crime que a policia usa, em volta da parte do vinhedo com plástico. Teve um monte de gente que veio, a TV, jornais, foi propaganda grátis pra gente.

A gente fez dois vinhos, o Valandraud, com as vinhas normais e um outro, com as vinhas proibidas (L’interdit). Só que este era um “Vin de Table”, a categoria mais baixa dos vinhos franceses. Vendemos os dois ao mesmo preço. É por isso que dizemos que é o vinho de mesa mais caro do mundo (rindo)

O Sr, olhando hoje, ainda acha que você tinha razão de fazer o que fez? Ou o Sr.  Se arrepende?

É melhor se arrepender daquilo que fizemos do que daquilo que não fizemos. Se não fazemos as coisas, é idiota. É lógico que eu fiz bem de ter feito aquilo. Porque mexeu a estrutura das coisas. De todas as maneiras, comprei vinhedos no sul da França, onde não há necessidade de cobrir nada, já que não chove e está sempre ensolarado.

Como você conseguiu rentabilizar um vinho que fugia tanto às regras?

A verdade é que eu obtive sucesso muito rapidamente. Meu primeiro vinho saiu em 91, em 92 eu era já muito conhecido e em 97 eu já havia ganhado muito dinheiro. As pessoas pensavam que isso não ia durar. Eles pensavam que seria um sucesso efêmero, como uma música que se torna rapidamente conhecida, mas depois desaparece. Você é um desconhecido e o normal é que você apareça e depois desapareça. Mas eu sou cabeçudo. E dura, por isso eu era um pequeno produtor “de garagem” e hoje sou Premier Grand Cru classe, algo que nunca aconteceu antes.

Durante muito tempo o Sr. criticou todas as regras da legislação vitivinícola de St. Émilion. Numa entrevista à revista Decanter, em 2007, o Sr. Afirmou que “há tanto que se pode fazer no vinho, o mundo inteiro está fazendo, mas nós aqui, em Bordeaux, estamos de mãos amarradas com todas essas regras`”. Mas agora o Sr. se encontra dentro da classificação mais rigorosa do sistema de AOC. O que aconteceu, por que mudou de opinião?

Esse é o paradoxo da minha história. Eu contesto as regras no ambiente onde as pessoas são imbecis e crêem que dentro da AOC o vinho deve ser feito de uma maneira e ninguém pode se mexer. O fato de estar classificado agora, é verdade, é um pouco bizarro, porque o sistema é rígido. Ao mesmo tempo, veja que o sistema é mesmo incrível, já que aceitou um cara como eu.

Quem mudou: você ou o sistema?

Os dois. A appellation mudou muito para me permitir estar nessa elite. As regras mudaram. Antes tinha que passar primeiro entre os Grand Cru Classé e depois virar Premier Grand Cru classe. Eu passei direto ao Premier. Antes precisava ter uma reputação histórica, seu pai, seu avô, a propriedade, o terroir tinha que ser reconhecido, notório….tinha que ir à igreja (faz cara de santo, ironizando).

Então, antes da última classificação, de 2006, que só terminou em 2011, a classificação estava muito baseada na noção histórica do terroir, o que é difícil de definir. O que é um terroir? Calcário, argila, areias? A novidade agora é que uma parte da nota vem da degustação e a qualidade do vinho é importante.

A comissão também mudou. Antes eram apenas enólogos, produtores, geólogos de Bordeaux que degustavam os vinhos. Agora, vêm especialistas de todo o país. Isso evita qualquer conflito de interesses, já que para quem vem de fora, tanto faz quem é quem aqui.

Então, as regras mudaram, os juízes mudaram e eu mudei. Não muito, já que eu sempre sonhei em ser Premier. Eu sempre achei que não havia razão de não ser. Não me chocou ter sido aceito. Eu sempre acreditei de maneira absoluta não que apenas que entraria dentro dos “classés”, mas que estaria dentre os Premiers.

Em 2006, quando me inscrevi, na verdade eu não queria entrar. Isso porque só inscrevi 2 dos meus 11 hectares e se apenas 2 hectares fossem classificados, não havia muito que eu pudesse produzir dali. Então escrevi na petição: se a comissão é séria, vocês classificarão Valandraud como 1er Grand Cru classe A, o segundo vinho, Virginie de Valandraud como B e o nosso terceiro vinho, como Gran Cru Classé e podem colocar quantos hectares de cada um quiserem. Daí a comissão disse: não é  a gente que determina quantos hectares, é você que tem que pedir.

Eu disse, “mas então, eu não tenho direito? Só os ricos é que podem ser classificados, os banqueiros, os donos de grandes supermercados?” Eles disseram: sim, você tem direito, e pode pedir para entrar diretamente como Premier, sem problemas. Então pedi 11 hectares e no final pudemos entrar com 8, quase 9.  Mas antes precisei passar por uma comissão para explicar o dossiê porque eles consideraram que não estava muito claro.

Cheguei a pensar: se eles me derem só o classé, vou recusar, mas como não sou rico, vou acabar aceitando. A verdade é que preciso encarar o fato que tenho uma empresa, muitos funcionários e que devo muito dinheiro aos bancos.

De todas as maneiras, seria muito difícil para eles não me aceitarem como Premier. O Valandraud que fez uma revolução, que chamou a atenção para Bordeaux, que lutou contra os vinhos do novo mundo, que tem boas notas e um preço alto.

O Sr. acha que depois dos processos movidos em 2006, por aqueles que haviam perdido o status de “classé” gerou uma crise no sistema:?

Acho que não. Acho que quem perdeu o status e entrou com processos são idiotas. Quer dizer, você se inscreve, se sujeita à classificação, perde e aí diz que não concorda porque perdeu seu status?

E, mesmo tendo sido rejeitado, ainda quer estar dentro deste sistema, sem acreditar nele? É bizarro, ilógico e desonesto. Você está dizendo: “essa classificação não vale nada, mas quero estar nela”.

O que você acha do apelido “Bad Boy”

Eu acho uma boa ideia. O Parker me deu esse apelido porque eu não me portava bem com o sistema, eu era mal criado, não respeitava as regras. E aí meus funcionários me deram a ideia de fazer um vinho com esse nome. Colocamos no rótulo uma ovelha negra e funcionou super bem. Essa ideia de “vinho de garagem” gerou muita polêmica.

Quando escreveram um livro sobre o “estado de lugar” do vinho de Bordeaux, todos os tradicionalistas falavam do movimento do “vinho de garagem”, um termo que eu inventei. Metade falava bem, dizendo que trouxemos frescor e atenção à região. A outra metade falava mal. Isso sem que ninguém tivesse perguntado, mesmo assim, todo mundo falava. Poucas pessoas degustaram nosso vinho, mas todo mundo falava dele.

Em alguns países, principalmente no novo mundo, não há regras rígidas para  produção do vinho. O Sr. considera isso bom?

Te dou um exemplo: em St. Émilion, não se pode plantar uvas que não sejam as bordalesas. Eu plantei chardonnay e syrah, que não são autorizadas. Mas tem que ser Vin de Table de France. Por que não se pode fazer experimentações com uvas forâneas?

Fala-se de mudança climática, que os vinhos estão muito alcoólicos, mas não podemos usar uvas do sul que estariam adaptadas aqui devido ao clima mais quente. Se plantássemos outras variedades, poderíamos ter vinhos de graduações alcoólicas mais baixas.

Fala-se de produzir vinho branco, mas pode-se plantar chardonnay na Austrália, na Califórnia, mas em Bordeaux não.

Não tem nada a ver com a tipicidade dos vinhos, como afirmam. O que é a tipicidade?  Antigamente o Cabernet Sauvignon de Bordeaux tinha um sabor vegetal horrível, verde. A tipicidade é ser ruim? Tipicidade é ser bom ou ruim.

Um outro exemplo: você acha que os dois maiores Châteaux de St. Emilion querem ser típicos daqui? Não, eles querem ser melhores. Fala-se de merlot como a uva típica daqui, mas esses dois vinhos têm uma porcentagem alta de cabernet franc.

O problema é que a AOC é feita por nós, homens, pela democracia. E você sabe, a democracia é a melhor das piores das coisas. Então o camponês tem medo do novo, não querem o novo, pois não sabem o que pode acontecer.

A forma de classificar um vinho deve se basear exclusivamente sobre sua qualidade.

Há muitas possibilidades, mas nós não as exploramos. A classificação evoluiu, quem sabe o sistema de AOC um dia mude. Não precisamos nos desesperar.

O “bad-boy” virou um “good-boy”?

(pára, sorri apertado, se demora).  Talvez de dia. De noite, não.

 

COMO FUNCIONA O SISTEMA FRANCÊS

O sistema de denominação de origem controlada, (AOC) da França é um dos mais rígidos do mundo. Criado nos anos 30, surgiu para controlar, proteger e promover nomes de regiões como Bordeaux, Bourgogne, Champagne, entre tantos outros.

Para carregar esses pesados nomes no rótulo, um produtor deve obedecer a regras apertadíssimas que concernem desde como devem plantar suas vinhas, quanto podem produzir, até maneira de produzir seu vinho. Além das regras, o sistema conta com um esquema de fiscalização rígido.

No caso de Saint-Émilion, importante núcleo vitivinícola de Bordeaux, há um sistema de classificação, que vai além da AOC, onde algumas propriedades são elevadas à elite destes vinhos, o Classement.

Criado em 1956, classificou propriedades em Premier Grand Cru Classé A, Premier Grand Cru Classé B e Grand Cru Classé, sendo os primeiros os de maior qualidade.

O processo ocorre a cada 10 anos e se dá por degustação feita por um juri independente, que, além de testar a qualidade dos vinhos, considera a propriedade em si, seus métodos de produção e a notoriedade do vinho no mercado.

A última classificação só se deu em 2012, porque a de 2006 foi anulada a causa de processos jurídicos de vinhos que perderam seu status, sendo demovidos desta elite. Finalmente, em 2012,  Château Valandraud, do desobediente Jean LucThunevin, ascendeu ao olimpo de St.Émilion, como Premier Grand Cru Classé B.

 

 

6 Respostas to “Thunevin: entrevista sem censura!”

  1. Melissa Crocettili Says:

    Muito bacana a entrevista, Ale! Interessante e esclarecedora. Gostei muito, parabéns!

  2. Pèricles Says:

    tambem gostei muito

  3. Marcos Aurélio Pessoni Says:

    Muito bom, o cara é mesmo um gênio!

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