O louco de Nápoles chacoalha a Toscana.

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Como faz pouco tempo que estive na região de Chianti Classico, quando recebi o convite para degustar vinhos de um cara que tinha no seu contra rótulo o Galo Nero, símbolo do Chianti Classico, com um espeto atravessado, fiquei curiosa.  Então fui. Giampaolo Motta é um italiano típico, falante, risonho e que gosta de provocar.

Galo no espeto!

Ele não é Toscano, é napolitano. É conhecido na Toscana como o Pazzo di Napoli. O louco de Nápoles.  Não é de uma tradicional família de viticultores de Sangiovese, seu pai é um industrial do ramo do couro. Ele não cresceu tomando Chianti Classico. Ele estudou química na França e lá se interessou pelo tema dos vinhos. Foi para a Toscana trabalhar, onde, depois de alguns anos de experiência, teve a oportunidade de comprar a Fattoria La Massa. Dividiu a terra em 3, ficou com a melhor e vendeu as outras duas. Giampaolo não ama a Sangiovese. Não a reconhece como uma grande uva. Contou como há estudos e documentos que falam que Chianti sempre foi um vinho de corte, que no século XVI já se contabilizavam mais de 200 uvas plantadas na região. Segundo ele, o Gran Duque da Toscana tinha como preferidas as uvas Cabernet e Merlot.

Para ele, a Sangiovese como uva protagonista da Toscana é uma invenção moderna, daqueles que queriam facilitar a comunicação do vinho da região para um público mais amplo: “Brunello di Montalcino é uma invenção dos anos 90”. Além do mais, para ele, a Sangiovese tende a dar vinhos que envelhecem mal, se oxidam,  perdendo o lado frutado rapidamente e com taninos que custam a amadurecer. “A Sangiovese é burra. Brota cedo, quando ainda há geadas de primavera, demora para amadurecer, quando o outono começa a esfriar. A Cabernet é inteligente: tudo o que você fala para ela fazer, ela obedece”. Não seria o contrário então? A Sangiovese tem uma personalidade desobediente, mais forte? “Não”. E não dá mais espaço para perguntas. “Me irrito com os puristas. Você coloca Cabernet e Merlot no corte, ficam indignados, falam que aquilo é um vinho internacional. E se for, por que eu tenho que fazer um vinho nacional?”

Tentou produzir um “Super Chianti Classico”, com Sangiovese e Cabernet Sauvignon. Mas ele não estava feliz, porque algo na Sangiovese o incomodava, nem seus consumidores, pois não entendiam aquilo como algo típico.  Mesmo assim, seu vinho e seu trabalho eram super pontuados em guias locais e nacionais italianos.

Até que ele conheceu Bordeaux. “Eu me achava muito sabido, mas quando vi o que faziam na França e o quanto estavam avançados no reconhecimento de solos, uvas, etc, vi que eu era um cretino”.  Giampaolo ama Cabernet e Merlot. Ama o corte bordalês. E, aos poucos, foi aumentando a porcentagem destas uvas no seu corte até que eliminou completamente a Sangiovese. Na degustação apresentada, podemos provar, no nariz e em boca, o desenvolvimento das idéias de Giampaolo Motta em relação ao seu corte e como seria seu vinho final, Giorgio Primo.

O louco e seus vinhos

O primeiro foi o La Massa, que é seu vinho mais básico. Segundo ele, neste vinho a Sangiovese mostra seu ladomelhor lado:  fácil, frutado, pra beber fresco, jovem, sem maiores complexidades. Tem um pouco de Cabernet e Merlot. É bem limpo no nariz, floral, com um toque de lenha e baunilha. Na boca é tânico, mas fino, com frescor, muita fruta, e o finalzinho típico da Sangiovese, que é um toque de vermute.

Depois tomamos Giorgio Primo 2000 e 2001, quando Giampaolo ainda estava dentro da DOCG Chianti Classico. Ele tenta dar mais “recheio”, mais meio de boca, mais doçura para a Sangiovese, adicionando Merlot. É uma época quando ele e outros produtores tentam criar uma associação de produtores que querem fazer um Super Chianti.

Ambos são Sangiovese com 15% de Merlot. O 2000 tem aromas bem tostados, com umas notas de carne. Na boca é alcoólico, com taninos finos, apertados, parece que mordi um caroço de maçã. Final lembra café e é longo e firme. O 2001 é mais baunilha e chocolate no nariz, apesar de ser fresco em boca, com ótima fruta e meio de boca.

Em 2003 ele sai totalmente da DOCG e o Giorgio Primo passa a ser um IGT. Mesmo assim, mantem a Sangiovese em 70% com merlot. O vinho é bem complexo e perfumado, com aromas de flor seca, bem maduro, toques de ervas secas. Na boca é fresco, redondo, um pouquinho secante, mas muito frutado, rico, apesar de um pouco curto.

O 2004 é um corte bem peculiar de 50% de Sangiovese, Merlot com Petit Verdot e Cabernet. Nariz interessante, com notas de argila, flor, um toque de chocolate, tudo fundido, delicado e elegante. Na boca é super frutado, com boa acidez e frescor, firme, crocante, ainda apertado, mas com ótima fruta e um finalzinho abaunilhado.

O ano de 2006 foi o do adeus à uva Sangiovese para seu principal vinho, Giorgio Primo. A porcentagem da uva já era bem menor, igualando-se à de Cabernet, Merlot em 30% cada e complementado com Petit Verdot. O nariz é extranhamente infantil, com notas de tutti frutti e bala de morango. Na boca é quente, alcoólico, apesar dos bons taninos finos, seu final é grosseiro e sem vida.

O 2007 é um corte à base de Merlot, com 50%, Cabernet em 40 e o resto de Petit verdot.  A idéia incial era ele ter lá seu 30% de Sangiovese. No entanto,  ele simplesmente mandou tirar do vinho essa parte da produção. Os toscanos, olhando aquilo, falaram: esse napolitano é louco. Daí o apelido, Pazzo di Napoli. O vinho é bem maduro, com muita frutosidade, geléia, mas um pouco fechado, sem muita amplitude. Na boca é bem elegante, fresco, tudo bem fundido – taninos, álcool e frescor, com um finalzinho picante, meio chocolate amargo e um toque de vermute.

O 2008, um corte parecido ao anterior,tem Cabernet e Merlot, com um 5% de Petit Verdot. Bem exagerado, com chocolate, bala de morango, explosivo, quase deselegante, forçado nos aromas. Na boca é quase doce, enjoativo, com toques de mel e própolis. Tudo é muito extremo, o álcool, o extrato, a doçura. Que mudança..O 2009 ainda está bem fechado, mas é mais frutado, parece mais delicado, mesmo que bem frutado ainda. A boca é bem alcoólico e denso, com taninos finos, e um pouco de frescor. Está jovem, talvez um tempo de garrafa mostre, como foi o caso de outros vinhos, mais complexidade.

Achei que os vinhos até a safra de 2004, ainda com um pouco de Sangiovese, tinham mais complexidade, mais elegância. Eu não sou defensora do purismo, acho que cada um realmente deve procurar seu caminho. Mas assim como Cabernet e Merlot, apesar de estarem plantadas no mundo todo, dão grandes expressões em seu berço, acho que a Sangiovese tem, sim, algo especial para contar em sua terra Chianti Classico. É tudo uma questão de se o produtor quer passar esta história adiante ou contar uma outra história, uma nova história, a seu próprio modo.

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6 Respostas to “O louco de Nápoles chacoalha a Toscana.”

  1. José Luiz Says:

    Pois é. Na última feira da World Wine, fiquei com a mesma impressão. Achei o 2001 muito superior aos demais. E não apenas em razão da idade. Perde-se na qualidade, ganha-se na publicidade. A idéia do galo assado é genial.

  2. Paulo Roberto Silva Says:

    Parabéns pelo blog, virei seu fã pela Band News e aprendo muito todos os dias, um abraço!

  3. Samoel Says:

    A pergunta que não quer calar:

    Seria Beto Gerosa o rapaz de terno e camisa azul ao lado do doidão? ô_ô

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