Falando de aromas e de memórias

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Adoro vinhos que não consigo descrever. Vocês, que me leem, sabem que costumo me prolongar nas degustações (e peço desculpas pelo que possa parecer exagero para alguns). Adoro os aromas, ficar um tempão descobrindo o que há na superfície e na profundidade de alguns vinhos.

I love wines that I cannot describe. You who read me know that I tend to prolong the tastings (and I apologize for what may sound exaggerated to some). I love the smells, and to spend a lot of time figuring out what is on the surface and depth of some wines.

Mas, às vezes, não consigo descrever alguns vinhos. Há dois principais motivos pelos quais isso me acontece. Primeiro, quando o vinho tem muita qualidade, está num ponto incrível em termos de maturidade. Aí, tudo fica fundido, não conseguimos distinguir os aromas, sentimos tudo – flores, frutas, madeiras, ervas, enfim…- mas não conseguimos dizer exatamente onde começa um aroma e termina outro.

But sometimes I can not describe some wines. There are two main reasons why this happens to me. First, when the wine has great quality, and it’s at a point of amazing  maturity. In this case, everything is well blended, we cannot distinguish the aromas, we just feel everything – flowers, fruits, woods, herbs, finally …- but  we cannot tell exactly where an aroma begins and another ends .

No segundo caso, mais difícil, não consigo descrever alguns vinhos que tenho ligação emocional, digamos assim, “infantil”. Tento explicar: quando comecei a beber vinho, ou melhor, degustar (comecei a beber alguns anos antes de prestar atençaõ no que estava fazendo), portanto, na minha “infância profissional” como degustadora de vinhos, o que eu mais tomava eram vinhos espanhóis, porque morava, estudava e trabalhava em Madrid. Claro, como estudante, eram vinhos baratos no começo. Depois, comecei a me juntar a amigos com interesses em comum e cada um punha um pouco de dinheiro e comprávamos vinhos melhores. Tomávamos muitos vinhos da Rioja. E, podemos falar de diferentes terroir, cortes de uvas, produtores, ou seja, tantas variantes no estilo do vinho. Mas, ainda hoje, quando abro um vinho da Rioja, não importa a idade que tenha, de quem seja, se é estilo moderno ou velha guarda, não importa: eu sinto aromas de Rioja. E, não sei explicar esses cheiros

The second case is difficult for me to describe some wines because I have some kind of emotional connection to it, something like “from my childhood”. Let me try to explain: when I started to drink wine, or,  even better, when I began to taste wine (because I started drinking wine way before I started paying attention to what I was doing), that means my “wine tasting childhood”, what I drank the most were Spanish wines because I lived, studied and worked in Madrid. As a student, of course, I started drinking cheap wine.Then, with my fellows students from Escuela de Hosteleria, each of us would put in a little money so we could buy better wines. We tasted a lot of wines from Rioja, basically. And, yes, we can talk about different terroirs, grape percentages, producers and all the things that make a difference in the wine style. But, still, today, when I open a bottle of Rioja, it can be from a modern producer, an old school one, a cheap, or expensive, I don’t care: I smell Rioja. And I cannot explain those aromas.

Tudo isto para explicar que hoje estou tomando o Contino Reserva 2004 e estou sendo teletransportada aos anos de 96 a 2000 que passei naquele lindo e generoso país. E os aromas que sinto são os das noitadas com amigos, em bares de vinho, que na época começavam a ficar na moda, pedindo vinhos em taça para ver suas diferenças (era tão difícil na época). Das viagens de ônibus a Jerez, tomando vinhos em copos descartáveis, dos fins de tarde de inverno, quando as castanhas eram assadas nas brasas na rua e deixavam seu cheiro na minha roupa. Do cheiro de tinta que exalava do atelier de pintura onde eu trabalhava para ganhar um extra,  raspando tábuas de madeira para que o cara pintasse..

All this to explain that tonight I am drinking Contino Reserva 2004 and I am being teleported to the years of 1996-2000 when I lived in that beautiful and generous country. And, what it seems to me is that those aromas are of nights out with friends, in wine bars, that were starting to get more in fashion, drinking different wines by the glass, trying to smell their differences (it was so hard at that time). I smell the bus travelling to Jerez, drinking wine in disposible cups. I smell the sunset in wintertime when gitanos would sell roasted chestnuts and the aromas of the charcoal would be on my clothes. I smell the paint and the wood shavings at the painting atelier where I used to work for extra money, carving wooden pannels for the artist guy to paint…

Não sei, talvez sinto as castanhas, talvez a madeira, os vinhos em taça todos misturados do bar, …talvez simplesmente sinta Madrid, talvez seja a Espanha. Talvez sejam seus aromas e sua boca com sua boa acidez, taninos firmes, mas fininhos, retrogosto abaunilhado, com um toque de café frio…talvez sejam apenas os aromas de boas memórias, de coisas boas…

I do not know, maybe the nuts, perhaps the wood, or the charcoal, or even all the blended wines by the glass from the bar … maybeI  just feel Madrid, or maybe Spain. Maybe the wines aromas and the mouth feeling with its good acidity, firm tannins, but so fine, this vanilla aftertaste  with a hint of cold coffee …  maybe those are just the aromas of good memories of good things …

Contino Reserva 2004

8 Respostas to “Falando de aromas e de memórias”

  1. Savio Says:

    Ahhh!!! Este e’ um dos aspectos mais interessantes no mundo dos vinhos. Como explicar para o cara que faz um vinho de 100% Altesse do Savoie, que o vinho dele tem um intenso aroma de goiaba branca? Ou para o produtor de Chateauneuf du Pape branco, que seu vinho com base de Roussanne, Marssanne e Clairette da safra de 2005 esta desenvolvendo aromas secondarios de capim-gordura? Toda nosso bagagem aromatica esta arquivada na nossa memoria e corresponde a toda experiencia que tivemos na vida desde o dia do nosso nascimento.
    Ha mais de trinta anos que moro fora do Brasil, porem nunca esqueci os aromas da minha infancia no interior de Minas, os quais hoje eu os associo com o Brasil. Para mim o aroma que representa o Brasil e’ o cheiro de “capim-gordura” na atmosfera da regiao de onde eu nasci.
    As vezes digo que certos vinhos nao devem ser tomados na companhia de muita gente, pois nao lhe dariamos a atencao necessaria para apreciar e explorar sua complexidade aromatica.
    Belo post Alexandra!

  2. Katia Kouzelis Says:

    Lindo texto.

  3. Reinaldo Guerrero Junior Says:

    Oi Alexandra! Sabe além de todo o ritual do vinho que conhecemos, ou melhor, que vc já conhece e que estou aprendendo a conhecer, tem este lado sútil, delicado, prazeroso, cheio de emoções, prazeres, sensações e principalmente recordações!!! Parabéns pelo post e principalmente pela história!!! bjo

  4. Barny Says:

    Ahhh!!! Este e’ um dos aspectos mais interessantes no mundo dos vinhos. Como explicar para o cara que faz um vinho de 100% Altesse do Savoie, que o vinho dele tem um intenso aroma de goiaba branca? Ou para o produtor de Chateauneuf du Pape branco, que seu vinho com base de Roussanne, Marssanne e Clairette da safra de 2005 esta desenvolvendo aromas secondarios de capim-gordura? Toda nosso bagagem aromatica esta arquivada na nossa memoria e corresponde a toda experiencia que tivemos na vida desde o dia do nosso nascimento.
    Ha mais de trinta anos que moro fora do Brasil, porem nunca esqueci os aromas da minha infancia no interior de Minas, os quais hoje eu os associo com o Brasil. Para mim o aroma que representa o Brasil e’ o cheiro de “capim-gordura” na atmosfera da regiao de onde eu nasci.
    As vezes digo que certos vinhos nao devem ser tomados na companhia de muita gente, pois nao lhe dariamos a atencao necessaria para apreciar e explorar sua complexidade aromatica.
    Belo post Alexandra!

    +1

  5. Juan Pedro Says:

    Olá Alexandra!

    Gostaria de te pedir algumas sugestões e penso que serão muito boas também para seus outros leitores.

    Queria indicações de um bom champagne até 200,00, um borgonha e um bordeaux até 100,00 e talvez algum da alsace ou loire também até 100,00. Natal está aí e bons presentes com ótimos preços são primordiais, risos.

    Desde já agradeço.

    Juan.

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