Don Melchor: 10 safras.

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Em um evento dia 9 de agosto, a Concha y Toro e o enólogo Enrique Tirado nos deram uma boa oportunidade de degustar 10 safras de seu ícone, Don Melchor e analisar como evolui um vinho clássico produzido no novo mundo. A degustação apresentou também o lançamento da safra 2007, celebrando, assim, 20 anos do vinho, que teve sua primeira safra em 1987.

Os vinhedos de onde saem as uvas para o Don Melchor estão localizados em Puente Alto, no vale do Maipo. São um total de 114 hectares dos quais 107 são Cabernet Sauvignon e o restante Cabernet Franc.

A produção é bem pequena, com baixos rendimentos por planta. São mais ou menos 4 mil plantas por hectare produzindo cada uma 1  kg de uva ou , como disse o enólogo “uma garrafa por vinha”.

O clima é classicão Maipo, com verões de dias quentes e noites referscadas por ventos que descem das Cordilheiras, apesar de alguma variação de uma safra para a outra. A amplitude térmica é importante, chegando a 30 graus durante o dia e baixando até 9 à noite.

Em termos de enologia, nada de especial – isso é o lado bom de se trabalhar com uma matéria prima excelente, o vinho praticamente se faz sozinho “o enólogo não é tão importante assim” confessa Enrique Tirado. Fermentações com temperaturas controladas e depois de 20 a 30 dias do momento em que a uva entra na vinícola, o vinho está pronto.

Nao tudo o que sai dali vai para Don Melchor. Há uma seleção do que se vinificou e entrará no corte não há discussão. Para Don Melchor, só vai o melhor”.

Depois do corte, os vinhos vão para a barrica. Que corte? Don Melchor não é praticamente puro Cabernet Sauvignon? Sim, mas, é um corte de diferentes Cabernets Sauvignon. Nos contou Tirado que cada pedacinho dos 107 hectares de Cabernet tem um estilo diferente de vinho, são colhidos em dias diferentes de maturidade e portanto, devem ser vinificados por separado e depois misturados. “quando comecei em Don Melchor, ia escolhendo as parcelas que mais gostava e queria que todas as parcelas produzissem aquele mesmo resultado. Depois percebi que esse não era o caminho. A complexidade de Don Melchor vem das diferenças de seus Cabernets Sauvignons. O Don Melchor é um corte de Cabernets Sauvignons”. Até 1994, o vinho era puro Cabernet.  Chegaram a usar uma pequena porcentagem de Merlot em 1995, mas segundo o enólogo, em vez de suavizar a Cabernet, acabou tirando um pouco do peso, do estilo clássico do vinho. Usaram Cabernet Franc em 97 e 98, mas iam chegando à conclusão que não estava funcionando e iam arrancar as plantas, até que finalmente, quando as plantas atingiram uma certa idade, começaram a mostra sua força e adicionar complexidade ao vinho. Por isso ficaram e entram no corte em diferentes porcentagens, segundo a matéria prima de cada ano.

Há vinhedos experimentais de merlot e petit verdot sendo observaos, para ver se no futuro agregam algo, mas ainda é ,“e sempre será”, insiste Tirado, um Cabernet.

1998: nariz bem evoluído, com notas animais, toques defumados e balsâmicos. Toques de pimentão verde, eucalipto e carne assada. Com mais oxigenação, toques de pimenta do reino, florais e carvão ficam evidentes. Na boca é fino, com boa acidez, taninos, finos, sequinhos, um toque salgado e final firme de álcool, não muito potente, mais magro e elegante.

1999: ano bem seco e quente, crítico pelo excesso de calor. No nariz realmente tem frutas cozidas, álcool, toques de azeitona verde e não é muito etéreo, é mais fechado. Na boca, no entanto, é fresco, tem taninos finos, bastante extrato, ricão, saboroso. No final tem um toquezinho alcoólico, mas é perfumado, não sobra calor.

2000: um clima normal, levemente fresco e o estilo do vinho, segundo Enrique, é clássico. Senti álcool, café, frutas e pimentão assado. Um otoque de café com leite, também defumados e carne. Na boca é cheio, cremoso, volumoso, grandão. Tem menos acidez, taninos firmes, secos. No final me lembra um chocolate amargo e licor de frutas ou algo como vinho do porto.

2001: clima fácil e equilibrado. Nariz com notas de baunilha, meio fechado. Toques de chocolate e bolacha de maizena. Demora um pouco mas abre para uns toques perfumados, florais com fruta bem brilhante. Na boca é mais magro e fresco, com taninos fundidos, não tem o “doção”  como tem o 2000. Um pouco mais diluído (no bom sentido), mais fresco e mais curto.

2002: Começa com uns aromas de pimentão vermelho e embutidos, mas também tem fruta. Depois aparece mais fruta e toques de café. Na boca é liso, com taninos fininhos, bom frescor, longo, o álcool carrega os perfumes pela boca. É longo, fino e elegante. Depois, Enrique nos contou que achava esta safra feminina e elegante.

2003: safra fácil, mas um pouco mais quente e com grande potencial para Enrique Tirado. Começa bem fechado e alcoólico. Vai se abrindo aos poucos, com toques de licor de cereja, fugaz, etéreo, uma fruta bem brilhante. Na boca é mais magrinho, mas com bom extrato, num estilo mais fino e sutil, com taninos delicados, acidez também delicada. É saboroso, mas sutil.

2004: bem aberto e exuberante, com notas de figo, floral, bombom de cereja, uns toques minerais que lembram areia. Na boca é fresco, mas doção, com muito tanino e álcool, retrogosto cheio, rico, com toques de café, madeira, tabaco, chocolate com menta. Estilão jovem, musculoso e potente.

2005: safra de grande maturidade. Tem baunilha, toffee, chocolate ao leite, mas não muito evidente. Na boca também é cheio e achocolatado, longo, com chocolate no retrogosto, bem denso.

2006: foi uma safra mais fresca, mas no final esquentou. Foi mais tardia, em geral. Tirado acha 2006 um dos grandes Don Melchor. Começou fechado, abriu lembrando pimentões vermelhos assados. Depois apareceram flores, frutas no álcool, mas sempre discreto, não é um estilo exuberante de Don Melchor. Na boca é fresco e maduro, com taninos muito fundidos e longo, sem ser exagerado ou enjoativo.

2007: notas de talco e cacao, pó de chocolate. De novo, as flores aparecem, mas bem discretamente. Na boca é cheio, jovem, com boa acidez, taninos ainda apertados e o álcool ainda não se fundiu, fica evidente. O final é longo e lembra chocolate amargo.

Basicamente podemos dizer que há Don Melchor para todo tipo de gosto. Mais evoluídos, mais delicados e elegantes ou mais potentes e musculosos, sempre dentro de um mesmo estilo. O estilo Don Melchor. Como a degustação vertical de outro ícone chileno Seña foi há tão pouco tempo, não pude deixar de comparar. Não há melhores ou piores, mas uma coisa fica clara. Enquanto que Seña tem um estilo elegante internacional que pode, em algumas safras nos enganar em relação à sua origem, em Don Melchoer, os gostos e aromas do Chile, os pimentões vermelhos com frutas vermelhas no álcool são muito transparentes, evidentes, pois aparecem  em quase todos. E a conclusão é que, sem dúvida, Don Melchor é um vinho de qualidade internacional, mas com um aspecto chileno inigualável.

2 Respostas to “Don Melchor: 10 safras.”

  1. Ricardo Brito (@RicardoWine) Says:

    Que degustação! No dia acompanhei pelo Twitter e hoje terminei de ler a matéria. Parabéns.

  2. sommelierprofissional Says:

    legal. valeu por acompanhar. abraco

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