O vinho Periquita, sua Confraria e eu

by

Não sei se vocês sabem, mas sou Confreira da Confraria do Periquita. Fazer parte deste grupo é uma honra incrível, pois são eles quem escolhem e convidam pessoas que eles acreditam terem agido positivamente e incentivado não só o vinho, mas a casa José Maria da Fonseca. Como contou Domingos Soares Franco, em uma entrevista há alguns anos. “A confraria foi criada em 31 de maio de 1993 – data do aniversário de José Maria da Fonseca – e reúne pessoas que realmente se destacaram por grande contribuição ao Periquita. Diversas pessoas pedem para participar, mas a seleção é realmente restrita”

Fui entronizada no ano de 2008, em uma cerimônia emocionante, lá na propriedade deles, no Azeitão. O ilustre Carlos Cabral conta sua impressões da noite, quando assistiu minha “admissão” na Confraria, aqui. 

Ao levar uma garrafa de Periquita para casa, ou bebê-la no seu restaurante preferido, o consumidor talvez nem imagine que está diante de uma bebida com uma história de 155 anos. Produzido pela vinícola portuguesa José Maria da Fonseca (JMF), é o vinho europeu mais consumido no Brasil e o rótulo de mesa mais antigo de Portugal. Com uma boa relação de custo e benefício (o preço sugerido é de R$ 26,90, mas é encontrado mais em conta em supermercados), o Periquita acaba de lançar por aqui sua safra 2001 e mais uma vez inova e mexe na composição da bebida. “Quem fica parado morre. Estamos sempre um passo à frente do mercado para continuarmos vivos”, justifica o gerente de área da empresa, Miguel Remédio. Nada mal para um vinho que já era encontrado na época do Brasil Império, em 1870, e que ainda faz sucesso entre os consumidores e com a crítica especializada.

A história do Periquita se confunde com a do fundador José Maria da Fonseca, que desde o início foi um inovador nas técnicas de cultivo da vinha e do marketing da bebida. Foi ele o responsável pela introdução, na Península de Setúbal, precisamente nas Terras do Sado, da uva castelão, que trouxe da região de Estremadura. Fonseca percebeu que esta variedade tinha maior potencial de envelhecimento e resistia melhor às longas viagens marítimas. Uma das provas do sucesso desta escolha é que o nome do vinho hoje se confunde com a própria uva castelão, que também é chamada de periquita na região. Mas o que realmente deu projeção à marca foi que, numa época em que a bebida era comercializada a granel, José Maria da Fonseca decidiu exportar seus vinhos em garrafa, segundo ele “a maneira correta de apresentar os objetos”. As garrafas vinham da Inglaterra, os rótulos eram confeccionados na França e as rolhas, na região da Catalunha, na Espanha.

A relação da JMF com o Brasil se iniciou na década de 70 e se fortaleceu a partir de 1884, quando a demanda pelos seus produtos cresceu no país. Além dos tintos, o vinho Moscatel de Setúbal também era um produto bastante exportado naquele período. Em 1917, quando a empresa era gerida por Antonio Soares Franco Júnior, a quarta geração da família, o volume de exportação era de cem mil caixas ao ano. Sua administração reforçou bastante os laços com o Brasil e na década de 1920 a JMF já tinha seu escritório no Rio de Janeiro. “Em uma época em que não existia a noção de globalização, o Periquita já era um vinho global”, observa Miguel Remédio. A década de 1930, porém, foi marcada pela recessão, não apenas no Brasil mas em todo o planeta. A retomada se deu nos anos 50 a 70, com um aumento do consumo interno. As exportações elevaram-se nos anos 80, quando se multiplicaram por oito, e nos anos 90 haviam-se quadruplicado. Hoje, com a sexta geração da família cuidando dos negócios, mais de 85% das 290.000 caixas produzidas é exportada. O Brasil representa nada menos do que o segundo mercado consumidor de Periquita, ficando atrás apenas da Suécia. Dinamarca fica em terceiro e Portugal em quarto lugar.

Se por um lado as origens do vinícola e o corte da uva castelão foram recuperados a partir de 1997, quando foi lançado o Periquita Clássico (veja quadro), por outro lado a safra 2000 inovou ao lançar mão de vários métodos para se adaptar à nova geração de consumidores. O tradicional rótulo do Periquita apareceu de roupagem nova, com uma garrafa de visual mais moderno, mais longa e estreita. As inovações também se deram no plano enológico. “Chegamos à conclusão que se adicionássemos uma porcentagem (7,5%) da variedade trincadeira e da aragonês ao castelão poderíamos conseguir um vinho mais fácil de beber ainda novo”, revela Remédio. O mercado aceitou as mudanças e as vendas cresceram em 2003 e 2004 em todos os países onde é comercializado. Agora, na safra de 2001 que chega às prateleiras, altera-se mais uma vez a composição: a porcentagem da uva castelão diminuiu mais um pouco seu espaço no corte (70%) e cresceu o espaço ocupado pela trincadeira (20%) e a aragonês (10%). “Mantivemos os 70% do castelão para manter a mesma estrutura e complexidade, que é uma das características do vinho”, diz Remédio. As mudanças, no entanto, param por aí, afirma categoricamente o gerente da JMF: “As variedades e o corte usados nas próximas safras de 2002 e 2003 vão se manter os mesmos.”

O Periquita é o grande embaixador do vinho português no mundo. Mais do que o embaixador do tinto em si, é um autêntico representante da maneira portuguesa de fazer vinho, do estilo do velho mundo de conceber seus produtos, com forte vínculo ao terroir, intensa ligação com sua história, cultura e foco nas uvas autóctones (variedades nativas de uma região). A José Maria da Fonseca deixa assim a lição: é possível aliar tradição e modernidade. Um vinho tradicional pode sobreviver ao longo dos séculos, ganhando mercado, sem perder seu estilo, adaptando-se às novas demandas dos consumidores, mas mantendo, também, seus mais antigos apreciadores.

Uma resposta to “O vinho Periquita, sua Confraria e eu”

  1. carlos henrique martins dos santos Says:

    Sempre fui aficcionado por bebidas em geral ,sempre ouvi a coluna da Alexandra Corvo dava agua na boca ,mas porém bebia vinhos suaves(doces) fui aprendendo a escolher os meus favoritos ,que entre eles esta o periquita . Vinho pra mim que se resume em redondo sem perder o lado maduro e mascúculo no bom sentido por isso sempre tenho um ou dois exemplares desse produto
    Um abraço para todos apreciadores dessa marca que tanto me estima

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: