Douro segue inovando

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Quando eu morava na Espanha,de 96 a 2000, e estudava hotelaria e sommellerie, em conversas com os profissionais, mas também em várias publicações especializadas espanholas da época, falava-se de algumas regiões que seriam o futuro do velho mundo, espécies de “eldorados” do então cansado formato europeu de pensar o vinho. O Languedoc na França, Priorato na Espanha, Sicilia, na Itália e o Alentejo, em Portugal, eram alguns deles. Algumas regiões realmente inovaram, outras nem tanto. Ninguém previu, no entanto, a ascensão da região do Douro.

Mais conhecida pela produção do mítico Vinho do Porto, a região não era vista como um grande centro em desenvolvimento em se tratando de vinhos não fortificados. Existiam, mas não estavam em evidência. Hoje, um década mais tarde, podemos afirmar, tranquilamente, que o Douro é a região mais proeminente em termos de boas surpresas, novidades, inovação aliada a tradição de Portugal. Não só seus vinhos seguem este raciocínio como a comunicação dos produtores com o consumidor vem se estreitando, em busca de um entendimento.

Primeiro o surgimento dos “Douro Boys”, um grupo de produtores (que inclui uma mulher) Dirk Niepoort, Francisco Olazabal, Cristiano van Zeller, Miguel Roquette, Francisco Ferreira e Sandra Tavares da Silva, passaram a chamar a atenção pela produção de brancos e tintos da região de qualidade altíssima.

Logo, com o sucesso estrondoso, outros produtores tradicionais investiram em inovação e a região é hoje, como disse, o centro das atenções em se tratando de inovação – tradição no país.

E, com tudo isto, o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto esteve mais uma vez em São Paulo com sua incrível prova do que há de melhor (e outras coisas nem tanto) na região. Obvio que não provei tudo, mas há algumas coisas que são interessantes comentar.

Degustei os vinhos do incrível Cristiano van Zeller, um dos Douro boys e, o de sempre. Os vinhos, em cada uma das gamas de preço, são super bem acabados, muito bem feitos e expressam a origem. O branco VZ branco, 2008 é cremoso, rico no nariz, bem maduro, apesar de não ter tanto frescor quanto necessário – mas a safra foi assim. Apesar de os vinhedos de brancos estarem mais ao alto, sentimos o calor da safra. O CV tinto também 2008 é exuberante, alcoólico, frutadão. Na boca tem taninos finos, mas força alcoólica, muita fruta e um toque de madeira, com comprimento médio.

O Quinta Vale Dona Maria 08 é exuberante (mas demora um pouco para abrir), com muita fruta e um toque mineral marcante, de pedra quente, de xisto mesmo, fumaça de lareira, impressionante. Na boca tem um frescor impressionante, aliado com chocolate amargo, vermute, muito rico e longo. O CV tinto é mais moderno, com muita fruta, chocolate ao leite. Na boca é bem mais duro, com taninos mais firmes e menos frescor, ricão e longo. Tudo é perfeito na qualidade, mas diferentes no estilo. São importados pela Vinho Sul.

A grande surpresa da degustação foi, sem dúvida, os vinhos da Conceito. Produzidos em um vale de clima muito mais fresco que o resto do Douro, mostram esse frescor muito, inusitado para a região. O primeiro vinho, um branco chamado Contraste é fresco, moderno, muito limpo no nariz, com toques de fruta e flores. Na boca é também fresco, cremoso e delicado. O Conceito branco é um negócio muito impressionante. Toques minerais, notas de fumaça, amanteigados, muito profundo e rico, quase lembra um Chablis ou algum Borgonha bem mineral. Na boca é gigante: tem cremosidade, grande acidez, mais cremosidade, muito sabor, é amanteigado, longo, gigante no sabor, com mineralidade e estrutura.

Dentre os tintos, provamos um puro Bastardo (e é esse o nome do vinho), uva não muito encontrada sozinha. Tinha a cor de rosé, mas é classificado como tinto. Uma nota de vermute no nariz, lembrando ervas pisadas e na boca é magro, com um toque amargo no final. O Contraste tinto 2008 tem notas frescas de ervas, tostados e álcool. Na boca é secão, com taninos finos, mas firmes, lembra um chá preto, um pouco magro para o que estamos acostumados a encontrar na região (realmente, é um contraste), mas tem elegância e comprimento. Ainda tem muito a mostrar, com o tempo.

O Conceito 2008 é intenso e sutil ao mesmo tempo. Tem muitas notas de flor fresca, rosas, bastante etéreo. Na boca é firme, rico, com acidez, álcool e taninos ainda não muito fundidos, mas tudo com muita qualidade. Impressiona pelo frescor e elegância.

Agora, o Porto deles é algo chocante. Vem das mesmas vinhas que o Conceito. E dá para ver algumas semelhanças. No nariz, não tem nada do que estamos acostumados (os típicos frutos e frutas secas, figos e nozes). Tem ameixas frescas recém mordidas. Tem flores frescas, rosas e violetas. Na boca, claro, tem a doçura, mas, de novo, da fruta fresca. Não percebemos o álcool – não seu lado mais agressivo – apenas sua cremosidade. É delicado, tem frescor, extrato, taninos finos e é muito longo….Importados pela Viníssimo.

O Roquette e Cazes 2007, como bem frizou meu amigo Manoel Beato, que degustava comigo, lembrava muito um Ribeira del Duero, algo meio Vega Sicilia. Frutas maduras, baunilha, um toque de charuto fresco. A madeira nova, os taninos finos, boca cheia, rico em sabor, frescor e densidade. Elegância. Importado pela Qualimpor.

Douro still innovating

When I lived in Spain, from 1996 to 2000, I was studying hotel management and sommellerie, and speaking to the professionals, and also reading a number of specialist Spanish publications at that time, the talk was about some of the regions that would be the future of the old world, kind of ” Eldorados ” of the then tired European format of thinking about wine. Languedoc in France, Priorato in Spain, Sicily in Italy and Alentejo in Portugal, were some of them. Some regions really innovated, some not as much. But no one predicted the rise of the Douro region.

More well known for the mythical Port Wine, the region was not seen as a big centre for development for un- fortified wines. They were there but not visible. Today a decade down the line, we can safely affirm that Douro is the region that stands out when it comes to good surprises, novelty and innovation allied to Portuguese tradition. Not only do their wines follow this logic, but the communication between producers and consumers has improved to try to reach a concensus.  

First the appearance of the  ” Douro Boys ” , a group of producers (which includes a woman) Dirk Niepoort, Francisco Olazabal, Cristiano van Zeller, Miguel Roquette, Francisco Ferreira and Sandra Tavares da Silva, called attention for the high quality of the whites and reds they produced in the region.

Taking the lead from their astounding success, other traditional producers invested in innovation and the region is today, as I said, the centre of attention when it comes to innovation-tradition  in the country.

With all of this, The Institute of Douro Wines and  Porto have once again come to São Paulo, with its incredible evidence of the best (and some things not as much ) in the region. I obviously didn’t taste everything, but there are some things worth  writing about.

I tasted the wines of the incredible Cristiano van Zeller, one of the Douro boys. The wines in each of the price ranges, are very well put together, very well made, and express their origin. The VZ White 2008, is creamy, rich on nose, very mature, despite not having the necessary freshness-but the harvest was like this. Although the white vines were higher, we felt the heat of the harvest. The CV Red also 2008 is exuberant, alcoholic, fruity. On palate it has fine tannins, but alcoholic force, a lot of fruit and a touch of wood, with  meduim length.

The  Quinta Vale Dona Maria 08 is exuberant ( but takes a little long to open ), with a lot of fruit and a definite  touch of mineral, hot stone, of  shale really, fireplace smoke, impressive. On palate it is impressively fresh, allied with dark chocolate, Vermouth, very rich and long. The CV Red is more modern , with a lot of frui , milk chocolate. On palate it is a lot harder, with firmer tannins and less freshness, rich  and long. The quality of everything is perfect, but the styles are different. 

The biggest tasting surprise was, without a doubt, the Conceito wines. Produced in a valley that is a lot fresher than the rest of Douro, they show this freshness, unknown for in the region. The first wine, a white called Contraste is fresh, modern, very clean on nose, with hints of fruit and flowers. On palate it is also fresh, creamy and delicate. The white Conceito is something impressive. Mineral touches, notes of smoke, butterscotch, very profound and rich, almost reminds one of a Chablis or some Borgonha,very mineral. On palate it is gigantic: has creaminess, a lot of flavour, buttery, long, gigantic in flavour, with mineralness and structure. 

Among the reds, we tasted a pure Bastardo (this is the name of the wine), a grape not very easily found alone. It had the colour of a Rose, but it is classified as a red. A note of Vermouth on nose, reminding one of crushed herbs and on mouth it is bitter, with a touch of bitterness  final. The Contraste Red 2008 has notes of fresh herbs, toasts and alcohol. On palate it is dry, with fine tannins, but firm, reminds one of black tea, a little thin for what we are used to finding in the region (it really is a Contraste), but it has elegance and length. It still has a lot to show over time.

The Conceito 2008 is intense and subtle at the same time. Has a lot of notes of fresh flowers, roses, a lot of ether. On palate it is firm, rich, with acidity, alcohol and tannins still not very smelted, but everything with a lot of quality. It impresses by its freshness and elegance.

Now their Port is something shocking. It comes from the same vines as the Conceito. And one can see  some similarities. On nose there is nothing we are accustumed to (the typical fruit, dry fruit, figs and nuts). There are just bitten  fresh plums. There are fresh flowers, roses and violets. On palate of course there is sweetness, but of again fresh fruit. We don’t notice the alcohol-not its aggressive side-only it’s creamyness. It is delicate, has freshness, extract, fine tannins and is very long.

The Roquette and Cazes 2007, as my friend Manoel Beato pointed out, that was tasting with me, reminds one of  Ribeira del Duero, kind of  Vega Sicilia. Mature fruit, vanilla, a touch of fresh cegar. New wood with fine tannins, full mouth, rich in flavour,  freshness and density. Elegance.

                                                                                                                                         

                                                                           

2 Respostas to “Douro segue inovando”

  1. eric auriault Says:

    Foi um prazer servir os vinhos da Conceito para voce. Quase coramos aqui de regresso a Portugal a ler este post. Me avisa quando visitar Lisboa ou o Douro… eric@conceito.com.pt

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