Espumante brasileiro: passado, presente e futuro. Por Eduardo Angheben.

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Por Eduardo Angheben

Eduardo Angheben é um jovem enólogo com uma experiência incrível.  Além de ser formado em viticultura e enologia e ser proprietário da Angheben, uma das vinícolas pequenas mais interessantes e efervescentes do país, ele já participou de estágios, concursos e  congressos no Chile, em Portugal, na Espanha e na França. E, não dá para não citar, ele é filho de um dos maiores viticultores do país, professor Idalêncio Angheben, professor de viticultura do CEFET por 35 anos, viticultor desde 1967 (!!!)  e também responsável pela vinícola.  Os dois dão aula na minha formação profissional e eu tenho profundo respeito pelos dois.

Pedi umas informações para o Eduardo sobre o espumante brasileiro e ele me escreveu o que eu considero um documento importante do momento atual do espumante da serra gaúcha. Esclarece muitas coisas sobre como se desenvolveu, o que é e o que será deste produto.  É técnico, é profundo, é longo e é importante.  Só para quem gosta de levar o tema a sério.

Primeiramente devemos levar em consideração que o Brasil é um país de dimensões continentais. Comparando a extensão territorial da França podemos dizer que ela é um pouco maior do que o Estado do Rio Grande do Sul. Dessa forma, falar de um único “Espumante Brasileiro” é um pouco complicado. Se considerarmos o RS e mais especificamente a Serra Gaúcha, ai sim, se pode abordar o tema de um produto com características típicas.

A história do espumante da Serra Gaúcha começa no início do século passado por volta de 1913. Pode-se afirmar que são quase 100 anos de experiência. A partir da década de 1920 que foram produzidos espumantes tipo “champanha” em escala e é deste produto que vamos tratar. Outros produtos como os moscatéis espumantes e os espumantes a base da uva prosseco vamos deixar para outra ocasião.

Segundo a atual Legislação do Ministério da Agricultura (MAPA) do Brasil, o Artigo 11 da Lei 7678/88 (Lei do Vinho) menciona o seguinte:

Art 11. Champanha (“Champagne”) é o vinho espumante, cujo anidrido carbônico seja resultante, unicamente, de uma segunda fermentação alcoólica do vinho, em garrafa ou em grande recipiente, com graduação alcoólica de  10 a 13° GL (dez a treze graus Gay Lussac), com pressão mínima de 3 (três) atmosferas.

Em 1942 foram exportados para os Estados Unidos os primeiros espumantes aqui produzidos. Na década de 1950 novas empresas estrangeiras se instalaram na Serra, principalmente no município de Garibaldi tendo como objetivo a produção de espumantes.

Contudo, foi a na década de 1970 que a produção brasileira de espumantes se firmou definitivamente. As multinacionais que aqui se instalaram, com grande destaque para a antiga Provifin (atual Chandon do Brasil), foram as responsáveis pela confirmação do potencial da região para a elaboração de espumantes. Elas trouxeram as mudas certificadas e introduziram cultivares mais apropriadas. Foram elas que difundiram por aqui o cultivo da Riesling Itálico, da Chardonnay e da Pinot Noir, baseando-se nas características de solo e clima da região. Além disso testaram inúmeras outras cepas, as quais não apresentaram aptidão ou adaptação satisfatória ao clima local.

A Serra Gaúcha possui um macroclima de temperaturas amenas, considerado como Temperado. Especificamente o clima da Serra Gáucha em particular a da Região de Bento Gonçalves e Garibaldi, que são os maiores produtores de espumante no Brasil, tem uma vocação natural quando se pensa em produção de espumantes de alta qualidade.

Para tal podemos considerar as temperaturas amenas, umidade adequada, inclusive na forma de chuvas, e a ótima insolação para a videira no sul do Brasil como pontos favoráveis. As uvas mais utilizadas, na Serra Gaúcha, para este fim (Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico) são consideradas indicadas para este tipo de clima, segundo estudos de especialistas, em especial para utilização para espumantes.

É bom mencionar que o que se busca, em termos de qualidade de uva para elaboração de vinho espumante natural, não é o mesmo que se deseja para outros tipos de vinho.

Cada tipo de vinho exige condições especificas de produção de uvas que darão seu caráter de qualidade e tipicidade.

Assim, no caso do Espumante da Serra Gaucha, considerando uvas produzidas em sistema de condução em espaldeira simples, com produção não superior a 3,0 kg/planta (para vinho a média é bem menor) se consegue o amadurecimento satisfatório da uva, em especial a maturação da polpa, que é o que interessa nesse caso. Nessas condições ocorre uma formação ideal da graduação alcoólica para o vinho base, que deve estar em torno de 10% a 10,5% em vol. Graduações superiores para o vinho base não são desejadas em função do aumento da graduação alcoólica (cerca de 1,5% – 2,0% em vol), que ocorrerá na tomada de espuma, e como conseqüência disso, uma mudança no equilíbrio organoléptico do espumante. Outra característica marcante desse clima, de temperaturas “brandas”, é o teor de acidez que permanece relativamente alto no momento da colheita da uva (para espumante), sendo assim, responsável pela sensação de frescor do produto.

Existe uma relação entre os fatores de graduação de açúcar e a acidez que é chamada de Relação Açúcar/Acidez. Esta é um tipo de relação para se medir o grau de maturação da uva.  Todavia, o aumento de açúcares nem sempre corresponde à mesma diminuição da acidez, pois são fenômenos independentes. A concentração de açúcar está relacionada à intensidade e duração da luz solar. Já o teor de acidez total (principalmente o ácido tartárico) está relacionado com a temperatura, sendo maior quanto mais frio fizer no período da maturação. O ácido málico, também depende da temperatura no período de maturação, entrando em combustão quando as temperaturas são altas. A chuva também contribui para o teor de acidez total. A média de 140mm mensais de dezembro a fevereiro é considerada bastante satisfatória para a produção de uvas para espumante na Serra Gaucha.

É importante destacar que em regiões não favoráveis naturalmente para a elaboração de espumantes, tenta-se chegar a um equilíbrio colhendo a uva em um estágio de maturação em que se encontra ainda “verde” (não madura), porém é muito difícil conciliar o grau alcoólico ideal com a acidez ideal, quando o clima não é apropriado para este fim. Outro efeito de colher uvas sem o ponto de maturação ideal é o amargor do vinho resultante.

Os solos da região de Bento Gonçalves e Garibaldi são medianamente profundos, moderadamente drenados a drenados em alguns pontos, com cores Bruno escuras a Bruno avermelhadas, textura franca as franco argilosa no horizonte A e argilosa no B, desenvolvidos a partir de rochas eruptivas básicas (basaltos). Ocorrem em relevos ondulados a fortemente ondulados, com declives médios em torno de 15%. Situam-se em altitudes que variam de 500 a 900 mm. A vegetação natural predominante é de mata subtropical mista com araucárias, já bastante modificadas pelo uso agrícola intenso. A fertilidade do solo é de baixa a moderada, e este se apresenta ácido e pobre em nutrientes disponíveis. O teor de matéria orgânica da maior parte dos vinhedos nesta região está em média de 3,0% – 3,5 %. O pH do solo é bastante variável, mas em média estão em torno de 4,5 – 5,0. A erosão é de moderada a forte. Não há falta de água devido à boa capacidade de retenção de umidade. Quanto à mecanização, estes solos apresentam, em sua maioria, limitações moderadas a fortes devido ao relevo permitir somente a utilização de implementos considerados leves. Devido a sua fertilidade esses solos necessitam adubações e calagens maciças. Seu maior potencial é para o cultivo de culturas perenes principalmente fruticultura (desde que feitas às correções de solo necessárias), reflorestamento e criações de animais de porte médio (ex:caprinos).

Baseado nessas informações pode-se afirmar com segurança que do ponto de vista técnico há pontos fortes no que diz respeito a elaboração de espumantes na Serra Gáucha:

Os pilares que sustentam tal vocação são primeiramente de ordem técnica:

  • Fatores edafo-climáticos (solo e clima) propícios;
  • Escolha de  porta-enxertos e cultivares bem adaptadas;
  • Práticas de manejo dos vinhedos adequadas;
  • Técnicas e tecnologias enológicas apropriadas que permitam exprimir o potencial qualitativo e a tipicidade da região.

Cabe ressaltar que o Espumante produzido na Serra Gaúcha é diferente e nem tenta imitar o estilo do Champagne. Nem do Cava. Podemos afirmar que aqui se produz um produto típico nosso. Nossos espumantes são mais frescos, leves e frutados, principalmente quando elaborados pelo método Charmat. Pelo método Tradicional ou Champenoise temos ótimos produtos em termos de qualidade, todavia, ainda há ainda maiores variações qualitativas mostrando que temos sim potencial e que também temos bastante espaço para evoluir.

Enfim, podemos afirmar que o Brasil já tem um produto vitivinícola emblemático: O Espumante da Serra Gaúcha. Há clima e solo adequados. Existe matéria-prima que está adaptada para este objetivo. E por último há conhecimento e tecnologia para tal. Falta saber se o Espumante da Serra Gaúcha é competitivo e se há reconhecimento disso. Pode-se dizer que o Espumante Brasileiro é competitivo, pois apresenta preços que parecem justos aos olhos do consumidor quando comparado com concorrentes franceses Champagnes (referência mundial) e espanhóis (Cava). Estes  apresentam valores de mercado muito elevados considerando um nível de qualidade semelhante aos brasileiros.

Em termos de qualidade, há consenso que os espumantes brasileiros são muito superiores aos demais espumantes sul-americanos.

Um fator a ser considerado que vem contribuindo para a boa imagem do Espumante nacional é  o fato do clima tropical da maior parte do país ser convidativo para o consumo de uma bebida “fácil de beber”, versátil e até  certo ponto refrescante.

Além disso, é  notório que o consumidor brasileiro ainda está aprendendo a tomar vinho. Todavia, alguns hábitos e estilo de vida são próprios de cada povo e se percebe que o brasileiro é mais descontraído, mas festivo e até certo ponto de vista, menos formal. Estes aspectos “casam”  com o tipo de espumante produzido no Brasil.

Portanto, se o produto tem qualidade, preço justo, um número limitado de concorrentes e combina com o clima e estilo de vida do brasileiro pode-se concluir que temos no Brasil um produto vitivinícola com grande potencial. Cabe ao setor criar estratégias sustentáveis para que essa imagem positiva continue em ascenção. Assim, ganham todos: produtores, revendedores e, sobretudo, o consumidor.

CONHEÇA A VINÍCOLA: http://www.angheben.com.br/

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2 Respostas to “Espumante brasileiro: passado, presente e futuro. Por Eduardo Angheben.”

  1. Joao Paulo Nascimento Says:

    Apesar de todo conhecimento, Eduardo e Idalêncio mudaram radicalmente o estilo do espumante da Angheben que era disparado o melhor do país. Com sua cor acobreada, perlage fina e incessante, aromas de panificação, levedura, bastante mousse e muita complexidade, se transformou em um produto insosso, comercial e até grosseiro se comparado ao velho estilo. Qual a razão? Segundo os próprios, um pedido do seu distribuidor para que fizessem um produto mais comercial, blá, blá, blá… Ora, que produtor é esse que ao primeiro “pedido” de um distribuidor altera radicalmente a alma do seu produto? Se isso fosse verdade, bastaria fazer um segundo produto na forma mais comercial, mas uma das verdades é que a Angheben perdeu os vinhedos que proviam as uvas que faziam aquele belo espumante; sim os vinhedos não eram deles. Ainda sou apreciador do Barbera e do Touriga Nacional dessa vinícola, mas não posso mais ser um entusiasta (como era) de uma empresa que altera para pior (na minha opinião) o seu melhor produto a “pedido” do distribuidor.

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