Ai, esse tal de bouchon*

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*bouchon é rolha em francês. Bouchonée é o defeito da contaminação dos aromas do vinho por uma doença da cortiça.

Essa história nunca vai acabar? Estava dando uma aula outro dia em uma loja de vinhos. De repente, vejo uma movimentação e o dono da loja me traz uma taça de vinho, sem falar nada, e deixa ali do meu lado. A reação normal é pegar a taça e cheirar – que foi o que fiz. Uma nota floral de incenso, muito limpa e linda. E foi o que disse: nossa, que perfumado.

Pois bem, essa garrafa, que custava uns R$ 700,00,  tinha acabado de ser devolvida porque a rolha estava “bichada” segundo o cliente. Traduzo para vocês: ela estava molhada. Para o cliente, isso era um claro sinal de “problema”. Aí está o problema de alguns clichês do vinho, como por exemplo, usar os olhos para analisá-lo (ou analisar a rolha). Seria muito mais simples se o cliente sentisse os aromas do vinho antes de ter visto a rolha. Mas, como, na grande maioria das vezes, as pessoas se sentem inseguras quanto ao seu potencial olfativo, preferem confiar na visão.

Outra coisa, eu não vi exatamente o que aconteceu, mas provavelmente a rolha foi apresentada ao cliente antes do vinho. Dá no que dá.

Vamos combinar: a rolha NÃO traz informação sobre o vinho. Eu sempre tenho essa discussão, principalmente quando se trata de ensinar meu alunos da formação profissional sobre cheirar ou não a rolha. Considero essa prática antiquada e feia. Ok, essa minha postura é discutível. No entanto, na minha experiência de pouco mais de 14 anos com vinhos, já me aconteceu de abrir vinhos com rolhas perfeitas e o conteúdo bouchonée. Ou, rolhas caindo aos pedaços com vinhos impecáveis. Eu perguntei para o Manoel Beato, melhor sommelier do Brasil, responsável pelos vinhos do Fasano, e ele concordou comigo sobre o fato de que a rolha não dá informação. No entanto, ele me disse que cheira todas, pois é praxe e as pessoas esperam isso dele. O Guilherme Correa, sommelier da importadora Decanter disse que em concursos se não se cheira, é penalizado.

Pelo menos no mundo dos concursos, a regra é clara. Para mim, enquanto não sentir o vinho, nada feito.

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5 Respostas to “Ai, esse tal de bouchon*”

  1. Dalmo Says:

    Perfeito, concordamos com voce.
    Abraços
    Dalmo

  2. Mario Netto Says:

    Desculpe, mas não existe explicação lógica para um vinho bouchonée com rolha íntegra.O defeito deveria ser outro.
    Abraço
    Mário

  3. Rubén Says:

    Concordo com você. Cheirar a rolha não indica nada. Mas, se Manoel cheira, fazer o que, não?
    Abraço,

    • sommelierprofissional Says:

      Ah, sim, Rubén. O Manoel cheira e os concursos punem os concorrentes se não cheiram. Mas, como nesse aspecto, eu sou uma rebelde e não aceito os padrões estabelecidos se eles não fizerem sentido, então mantenho a opinião de que cheirar rolha não tem uso algum. Abração e obrigada pela visita.

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