As mentiras que os homens (do vinho) contam.

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fonte: www.obiwi.fr

E por homens, por favor, entendam pessoas. É impressionante que o site oficial dos vinhos da Argentina publique de maneira tão sem vergonha uma inverdade tão descomunal como a que a Malbec nunca se desenvolveu bem em lugar nenhum, só na Argentina.

E, numa falsa humildade, confessam, “No nació en Argentina (ah, tá, que bom que isso, pelo menos, vocês admitem), procede de Francia“.

Mas o texto do site segue:

“pero nunca se desarrolló allá ni encontró las condiciones ideales que posee el suelo al pie de los Andes o en los vergeles-desierto de Río Negro, en la Patagonia. De hecho, el único uso interesante que se le había dado a esta cepa en Francia es como “colorante”, para intensificar el tono.”

En muchas partes del mundo le llaman la “uva negra” justamente por el tono púrpura y a la vez brillante que presenta en su juventud y que puede tornarse casi negro en algún momento”

Primeiro, o que se chama de negro é o vinho e não a uva. No século XII, precisamente em 1152, a Aliénor de Aquitaine (francesa daquela região ) se casou com o Henri Plantagenêt,  que virou rei da Inglaterra. Resultado, o vinho de lá foi muito exportado para a Inglaterra. Por sua cor densa, ficou conhecido como “black wine”, apelido que, mais tarde, os próprios franceses usaram, ficando conhecido com o “vin noir”.

Fora a informação errada sobre a “uva negra”, é uma grande mentira que a uva não se desenvolveu em outros lugares.

A região de CAHORS, BERÇO E CASA ILUSTRE DA UVA MALBEC, é, há séculos, uma região produtora de muito êxito, com seus vinhos carregados, densos, tânicos e mais rústicos feitos com, no mínimo, segundo a legislção, 70% da uva malbec ou, como também é conhecida na região, Cot. As outras uvas autorizadas são tannat e merlot.

Para não ficarmos no âmbito só de Cahors, a uva Malbec foi parte do corte bordalês durante séculos. Segundo Benjamin Lewin, em seu livro “What Price Bordeaux” em uma catalogação das uvas de Bordeaux de 1874, listadas em ordem de importância, a Malbec era a primeira. Ela era mais importante nos vinhos da margem direita, variando de 30 a 60% da composição dos vinhos, dependendo da comuna onde era produzido. Isto se manteve até a filoxera. No replantio, lentamente, a Merlot foi tomando mais espaço e, depois do inverno de 56 (onde o frio matou quase todas as vinhase houve replantio de novo) ela praticamente virou a uva da margem direita.

Eu não tenho nada contra Malbec argentino, menos ainda contra o povo argentino, todo o contrário. No entanto, não sejamos mentirosos, porque isso não dá para tolerar. A cada coisa sua história, cada coisa sua origem. Se não vou falar que o churrasco foi criado na casa do meu tio Toninho e que não funciona bem em nenhum outro lugar do mundo (só porque o dele é o melhor!). No vinho, principalmente na hora da informação, imparcialidade é ESSENCIAL.

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4 Respostas to “As mentiras que os homens (do vinho) contam.”

  1. Rodrigo Says:

    Muito pertinente o comentário. Acho, inclusive, que na média os vinhos de Cahors são melhores e mais macios que os argentinos.

    Independentemente disso (até porque atualmente a argentina tem vinhos muito bons), um pouco de humildade e verdade não faria mal a ninguém, em especial quando se fala de um site oficial, que deveria ter boa intenção e precisão na informação.

    Abraço,

    Rodrigo
    esseeutomei.blogspot.com

  2. jose roberto l. de assumpçao junior Says:

    Ola como vai ?

    Bem que estava achando estranho quanto ao outro site, pois do nada havia sumido o seu blog na abril.

    Felicidades quanto a empreitada.

    Sempre acompanho as suas dicas na band, tendo apreciado muito as suas indicaçoes na Pascoa.

    Se posso sugerir, que tal uma empreitada nos produtos das vinicolas de Sao Paulo e Minas, como em Sao Roque por exemplo.

    Para o publico iniciante, seria um bom começo para depois galgar outros degraus.

    Atenciosamente

    Jose Roberto L. de Assumpçao Jr.

  3. Vinhos do deserto « Alexandra Corvo Says:

    […] (corte antigo bordalês – atenção argentinos, malbec não existe só na argentina como já conversamos aqui). bem quente, com madeira, cravo e folha pisada no nariz. Na boca, ainda boa acidez (toda natural […]

  4. Sudoeste da França, sim, por favor. « Alexandra Corvo Says:

    […] Ela é mais conhecida pelos vinhos argentinos que decidiram marketar que essa uva é deles e todos os meus alunos tiveram uma certa dificuldade em ouvir que não e entender que a Malbec vem de outro lugar fora de Mendoza e alhures. Comentei isto aqui. […]

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